sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

CELEBRA ACORDO CÉNICO COM MUSEU DO TEATRO



CELEBRA ACORDO CÉNICO COM
 MUSEU DO TEATRO



Museu Nacional do Teatro
Estrada do Lumiar, 10
1600-495 LISBOA

MAIS DO QUE A TEATRALIZAÇÃO DE UMA VISITA GUIADA, TRATA-SE DE UMA CRIAÇÃO TEATRAL
QUE PERCORRE E DESVENDA OS LABIRINTOS DO TEATRO ATRAVÉS DA CIRCULAÇÃO PELO MUSEU.
A PRODUÇÃO SERÁ PÚBLICA A PARTIR DE OUTUBRO
SENDO TAMBÉM CERTAMENTE DE INTERESSE ESCOLAR.

PARA TODOS OS QUE QUEIRAM CONHECER O TEATRO:
A HISTÓRIA E A CRIAÇÃO E PRODUÇÃO ARTÍSTICA, EIS…

LABIRINTOS À VISTA
NO MUSEU DO TEATRO

BEVEMENTE MAIS INFORMAÇÃO, DE INTERESSE PARA QUEM VAI VER E QUEM PODERÁ VIR A FAZER!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

“INDÚSTRIAS CULTURAIS”?...


“INDÚSTRIAS CULTURAIS”?...

De súbito, tornou-se “moda” falar de “indústrias culturais”, sem reflectir no contra-senso de que o próprio conceito, em forma e conteúdo, está impregnado. Trata-se, de facto, de um disparate rematado, que os incautos podem ter por bom, carecendo de desmontagem para não gerar equívocos. Já bastam os que bastam!
Tirando o caso do cinema, que é uma indústria sem ter que deixar de ser arte, não há indústrias culturais. Os bens culturais (perenes ou efémeros) são únicos e irrepetíveis. O cinema pode processar-se em produção massivamente por via de cópias que podem ser exibidas em simultâneo por todo Mundo enquanto produto ele mesmo e não “imitação” ou registo da obra de arte em si. Isso confere-lhe, até certo ponto, a razoabilidade da aceitação do termo, embora seja preciso fazer uma distinção entre a “criação” e a “distribuição”, o que melhor se clarifica no último parágrafo deste artigo. Mas penso ser mesmo caso único porque no mais não há espaço a confusões. Nas artes plásticas, por exemplo, as réplicas que se vendem (ou vendiam) no Porto, na Rua Sampaio Bruno, da “Última Ceia” pertencem a um processo industrial (este de má qualidade, por acaso), mas o objecto de arte de Da Vinci está única e exclusivamente no Convento de Santa Maria delle Grazie; não pode pertencer a qualquer indústria, mesmo na industrial cidade de Milão.
Mesmo no caso da indústria livreira, tal como na discográfica, trata-se de indústrias que usam (sem discutir o mérito democratizante, sem perda do carácter de negócio que são) como matéria-prima a literatura e a música enquanto artes. Mas não são arte; a parte industrial é a da reprodução e circulação das cópias registadas, não o produto original, enquanto criação: a música (na pauta ou nos acordes da orquestra) e a literatura em si (o texto “inventado”, mesmo na “série repetitiva temática” de um autor como Paulo Coelho) não são uma indústria porque acto singular de criação. Quanto à televisão, então, nem pensar! Ela não é, nunca foi e estou convicto de que nunca poderá ser, por si e em si uma arte ou sequer um bem cultural: é um canal que pode (e devia) escoar cultura, aliás no cumprimento de um serviço público, mas, no caso português (e não só), a não ser por distracção certamente, tem estado mais dedicada a escoar apenas subprodutos e diversas toxinas da ficção nacional e internacional, algumas das quais são tão devastadoras no plano da inteligência dos tele-espectadores, quanto criminosas na responsabilidade dos seus “inventores” ou servidores de topo na cadeia da concretização desta ou da dita informação noticiosa.
Todavia, é algo difusa a compreensão plena do facto na questão do livro e do disco. Ao abordá-la entramos num capítulo mais complexo em que falar de indústrias da cultura pode fazer sentido, mas, mesmo assim, não é indústria cultural. É uma indústria que parte de um bem cultural, mas não é aplicável a adjectivação ao substantivo. Isto não é apenas semântica e mesmo que o fosse era decisivo na diferença, que é o que para a semântica serve: não se trata de todo de indústrias culturais, mas, como se disse, de indústrias da cultura. É que a primeira designação diz-se de uma coisa e na segunda outra se diz, que me abstenho de “explicar” mais porque os que sabem ou querem saber já o sabem ou facilmente compreenderão e não precisam que o repita; e os que não compreendem ou não querem compreender, e julgam uma mera nuance despicienda, nunca o irão saber.
Entretanto, ao deslocarmo-nos para as artes performativas (efémeras) ou o património edificado (perene), então nem em indústrias da cultura podemos com rigor falar, mesmo se um monumento serve para recolha massiva de bilhetes de entrada e se integra nos roteiros do turismo cultural (termo aceitável, já se verá porquê), tal como uma peça de teatro “franchizada” a partir da Broadway ou do West-End. Trata-se, outrossim, de objectos comerciais, o que não implica sempre e obrigatoriamente uma desclassificação artística, entenda-se, mas não são, pela sua própria condição arquetípica, coisas industriais. Na sua natureza, que não na substância necessariamente, mas enquanto processo, trata-se mais de artesanato: coisa díspar e inconfundível, como o são um boneco feito à mão pela Rosa Ramalho ou as bonecas Barbie feitas em série num molde.
Esta diferença ignorada ou esquecida com que muitos “engolem” a coisa, não é, todavia, na matriz, uma ingenuidade ou coisa inócua. Serve objectivamente às mil maravilhas um propósito de quem mete no mesmo saco – com fins que ressaltam óbvios, mas que vão muito bem embrulhados para esconder as finalidades últimas, coladinhas aos fenómenos económicos de cariz ultra-especulativo e tóxico como o da banca em “overgambling” – a cultura com a sua distribuição e formas de indústrias criativas, que é outra coisa, onde, por exemplo, se incluem a publicidade, o design, a moda, a joalharia… E cuja importância ou intercessões não são desprezáveis, mas é real e definitivamente uma outra coisa e outro sector. Tal como o são o turismo e a cultura, mesmo havendo turismo cultural, se e quando o destinatário comercial opta pelo consumo de bens e serviços culturais: aí sim, é apropriado o termo porque é o turismo que como tal se classifica e não a cultura que é uma face da indústria, como o sugere o termo “indústrias culturais”. De resto, ao nível de indústrias criativas, como as já citadas, nada impede que nelas seja incorporada mesmo uma criatividade genuinamente artística no conceito, mas não no processo de produção.
Pode parecer excesso de rigor o cuidado em demarcar territórios, mas é fundamental. É que nem toda a criatividade é cultura, nem toda a cultura criativa. A Vénus de Milo é um bem cultural e não carece de incorporar nova criatividade para o ser. Mas exigiu-a para o ser, obviamente. Todavia uma criatividade certamente muito diferente dos que fizeram espectáculo de entretenimento o Circo Romano, por mais aguçada que a perversidade da imaginação e do prazer obtido pelo receptor tenham, inegavelmente, existido. Mesmo que no interior de um objecto de arte, que como tal permanece (o Coliseu) acho que é fácil distinguir o fim e resultados das coisas.
 Aliás, ao termo “cultura” não existem só os que reagem “rapando da pistola” de forma radical; há sempre também quem esteja disposto a usar cortinas de fumo sobre o assunto na duplicidade do uso do termo: no campo da antropologia e no da arte – complementares, dialécticos, mas carentes de focagens diferentes ao abordar certas questões, que importa, no interesse mútuo de cada um dos planos da observação e uso do termo, ressalvar. É que naquilo do que estou a falar, em termos de objectos, bens produzidos ou serviços desfrutáveis, há diferença entre cultura artística e tradição cultural: a primeira “reinventa” (ainda que na releitura de um monumento existe um móbil de sentimento e/ou pensamento transformador do tempo que antecedeu o contacto com ele) e na segunda permanece a repetição do adquirido, sem necessidade ao recurso da “redescoberta” do eu. Quando não, do mesmo modo que as touradas são elegíveis como cultura (no sentido de par da escultura, da música, do cinema, do teatro e assim), porque não, em certas regiões de África, não pôr sob a mesma tutela a expressão cultural, muito mais antiga e abrangente até, da excisão do clítoris?
Do mesmo modo se gera com facilidade a confusão entre o que é (legitimamente e a montante do valor técnico e formal que possa possuir) cultura, no sentido já atrás empregue fora da visão antropológica, e entretenimento, na área confluente entre actividades, de forma idêntica, mas cuja fronteira é simples: a primeira acrescenta alguma coisa no que o Homem se distingue das demais criaturas do planeta, pela emoção, sentimento ou razão; a segunda nada acrescenta para lá do prazer imediato que suscita o seu exercício ou recepção.
Assim, quando muito, nesta distinção entre as tais indústrias criativas e esse jargão de “indústrias culturais”, o que pode acontecer é constituir-se “industrial” alguma forma de expressão “artística”, nesse sentido de entretenimento puro, como “cultura industrial”, no sentido que serve de produto para consumo massivo sem olhar à génese do seu contributo para a inevitável transformação que um acto cultural provoca no Homem, mesmo quando pela negativa, é realizado junto dos que, não detendo os códigos para a sua compreensão, o rejeitam ou torcem na leitura (facto a que as artes performativas, porque efémeras, devem prestar maior atenção). Mas o porquê da nossa “preocupação” é simples, porque uma e outra se distinguem qualitativamente: a indústria busca o consumo, a cultura o usufruto; o destinatário da indústria (inclusive a da distribuição cinematográfica) é um cliente, o da cultura (inclusive na parte respeitante à criação artística no cinema) é um fruidor. E isto, que pode à espuma das palavras ditas parecer irrelevante, é, substantivamente ao nível da linguagem, tudo. Pelo menos tudo o que importa distinguir neste campo, cujo étimo mais profundo de negócio (negotium de neg-, otium = negação, contraposição ao ócio)) remonta precisamente à negação do ócio, que é o que, a par do aumento de conhecimento(s), justifica a necessidade humana das artes e da literatura.

Castro Guedes, Director Artístico de DOGMA 12
 In “As Artes Entre As Letras”, 30.Junho.2011

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

1ª CRIAÇÃO DE DOGMA 12 NOMEADA PARA PRÉMIO



Criação de DOGMA 12 Nomeada para Prémio


TRÊS MULHERES
EM TORNO DE UM PIANO



NOMEAÇÃO NA CATEGORIA: MELHOR TEXTO PORTUGUÊS REPRESENTADO EM 2012
PRÉMIOS SPA
Sociedade Portuguesa de Autores



Estreada em Julho de 2012 no Teatro da Comuna, “Três Mulheres Em Torno de Um Piano” foi a 1ª criação de Dogma 12 (constituído em 17 de Fevereiro de 2012) e fica logo assinalada pela nomeação para os Prémios da SPA, na categoria de Melhor Texto Português Representado em 2012. Trata-se de um estímulo, cujo significado se encontra ampliado não só por ser a 1ª criação deste novo projecto, mas também porque no seu Manifesto Fundador, nos 12 dogmas enunciados, o nº 11 reza assim: “o reportório aqui abrange exclusivamente textos originalmente escritos em língua portuguesa: como afirmação identitária; não expressão xenófoba.”.
 "Três mulheres em torno de um piano" é acompanhado na nomeação  por "Chão d´água" de João Monge e "Três dedos abaixo do joelho" de Tiago Rodrigues.
“Três Mulheres em Torno de Um Piano” integra uma trilogia (Jogo de Espelhos), a que pertencem os textos “2084: o Triunfo dos Novo Porcos” e “Hotel Bielderberg” (este proposto a concurso à DGArtes, para ser estreado na Sala-Estúdio do Teatro da Trindade em 31 de Outubro próximo, na altura da reabertura do espaço agora encerrado para obras). Ambos incluirão uma edição da Editora “Letras & Coisas”, prevista para 22 de Abril, com o “Teatro (In)Completo” de Castro Guedes (peças e teatralizações), assinalando os 40 anos de carreira profissional do Director Artístico de Dogma 12.
A escolha final de entre os textos nomeados será divulgada na Grande Gala da SPA no dia 25 de Fevereiro no Centro Cultural de Belém.






O destino da produção do “Hotel Bielderberg” será conhecido aquando da decisão da DGArtes/SEC para os apoios às artes, com anúncio previsto para 21 de Março.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O TEATRO DA CONSCIÊNCIA



UMA RESPOSTA À CONTEMPORANEIDADE

Na categoria muito ampla de um teatro político, no sentido de reflectir sobre a vida em comunidade, optei por aquilo a que chamo teatro da consciência. Trata-se de um teatro que procura responder à crise civilizacional conducente a outras crises: económicas, políticas (no sentido mais stricto sensu), éticas, religiosas, existenciais, psicológicas ou o que seja. Um teatro que procura dirigir-se ao homem numa visão de certa forma holística e nos limites de uma cosmogonia ético-comportamental. Um teatro que nos defronte perante nós mesmos e cada um por si, em pleno uso do seu livre arbítrio de escolhas comportamentais, de relação e modelos sociais. Não se trata em tempo algum de um teatro de natureza doutrinária, seja na forma da catequização, seja na panegírica; e muito menos de intervenção em agit-prop.
Como o disse Almada Negreiros, “Quando eu nasci as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”. E foram essas frases já escritas, o erro trágico dos totalitarismos no século XX, ao quererem impor o modelo tomado por bom, como unívoco e certeiro, coartando a consciência individual dos cidadãos, o que, por natureza humana até, o recusariam sempre liminarmente, mesmo se algum deles fosse o melhor. Nem falo de práticas, no que resultaram e implicavam, mas mesmo da construção ideada das utopias. E a resposta das democracias foi outro embuste, revelando-as não só igualmente totalitárias no limite actual do sentido único dos seus modelos socioeconómicos (uma contradição insanável no próprio bojo, que as faz caminhar para autoritarismos de tipo novo), como, mesmo se respeitada no seu sentido arquetípico e literal, a escolha pelas maiorias torna-se em ditaduras de quantidade e não numa sociedade de qualidade. Pior ainda porque essas quantidades são manipuladas por novos métodos de perversidade nunca vista, recorrendo frequentemente e conscientemente à passagem de mensagens subliminares e/ou à exibição de produtos entorpecedores da consciência através da destruição objectiva de neurónios (fisicamente e não em sentido figurado apenas) e do embotamento da parte límbica do cérebro. Ou, dito de outra maneira filosófica e religiosa: mataram alma e espírito E se os totalitarismos consagraram em lei o cânone único, as democracias repetiram-no na prática de um mainstream (em variantes populares e para intelectuais), fora do qual é impossível - ou quase – a criação artística. Será muito diferente?
Então o que falha aqui? Como se podem alertar e libertar da letargia pessoas (que são muito mais do que cidadãos ou indivíduos, membros de classe social ou tipos de personalidade) para, no sonho marivaudiano de uma sociedade melhorada pelo exemplo, “corrigirem seus defeitos”? Ou fazer com que, em última análise, o pensamento de Ghandi “sê a mudança que queres ver nos outros” possa transportar-se na obra sem que se perca no éter do Século XIX?
Julgo que não é a apontar caminhos do alto do pedestal de um palco, nem com combinações interactivas de exorcismo vazio de resultado. Defendo – sem renegar os contributos das escolas não-aristotélicas ou mesmo anti-aristotélicas – o regresso a uma catarse de tipo novo, que, não tanto pela compaixão de identidade intimide, mas pela possibilidade de pelas personagens (compósitas e não tipificadas à velha maneira do cínico e da ingénua, do herói positivo e herói negativo, do protagonista e antagonista) com seus próprios paradoxos ou contradições, mergulhar na consciência individual cada um por si e para si, revendo-se criticamente, pelos preceitos aristotélicos, mas reordenados em pathos-logos-ethos para chegar a ethos-logos-pathos. É um teatro da consciência e não de “consciencialização”, porque esta palavra pressupõe, mais do que a tomada de consciência (num sentido psicanalítico), a adesão à doutrina ou ponto de vista do que discursa, tornando-se, em si, forma-outra de alienação da consciência em si. Este teatro propõe um jogo de espelhos, no sentido central da questão levantada por Rudof Laban, que lhe nega a natureza de “uma instituição para fazer um julgamento moral”, mas antes “para despertar (…) a responsabilidade pessoal e a liberdade de acção”.
Com o perigo de não agradar nem a gregos, nem a troianos, cristalizados nas suas formas e fórmulas, assume-se na negação quer da art engagée, quer da ars gratia artis, contraposição que não me faz sequer sentido. Porque o papel da arte é sempre “pela arte” e sempre “comprometida” com a consciência do artista, esteja a falar do que esteja. A arte – de formas diversas, muito visível nas artes cénicas pelo imediatismo comunicacional – é, ou deve ser para ser, mais um lugar de inquietação do que de afirmação, de pergunta do que de resposta, de provocação (de consciências num divã freudiano comunitário) do que de comícios ou afrontamentos gratuitos (num divã de promiscuidades individuais arrogantes).
O teatro da consciência propõe-se substituir, actuando de acordo com a contemporaneidade, as vanguardas de ontem, que se tornaram em modelos amorfos e integrados; e que, à mistura com uma pós-modernidade – serôdia e deturpada do seu sentido inicial, muitíssimo afastada da sua mãe modernidade - é bolor e ranço do entretenimento digestivo pseudo-intelectual. No teatro da consciência não se quer cânone estético, mas sim uma mudança de abordagem e relação criação/público. Nele cabem estéticas diferenciadas entre si, mas convergentes num conjunto de paradigmas sobre o que o teatro é; e, apesar de ser vanguarda nova, retoma muito do que as vanguardas antigas deitaram fora com a água do banho: o bebé…


Castro Guedes,
Director Artístico de Dogma 12
In “As Artes Entre As Letras” de 15/01/2013